Carta aberta à população
A população de São Paulo e do Brasil recebeu com interesse a notícia da construção do primeiro hospital inteligente público do SUS, vinculado ao projeto do Governo Federal em parceria com o Banco do BRICS. A criação de hospitais modernos, tecnológicos, integrados, com maior capacidade assistencial e voltados à inovação é uma iniciativa importante e necessária para o fortalecimento do sistema público de saúde.
Defendemos a ampliação da assistência hospitalar, o uso de novas tecnologias, a melhoria dos fluxos de atendimento e a modernização do SUS. O Brasil precisa de hospitais públicos fortes, inteligentes e capazes de responder às demandas atuais e futuras da população.
No entanto, a implantação de um novo hospital não pode ocorrer à custa do enfraquecimento, da desmobilização ou da perda de capacidade operacional de outra instituição essencial: o Instituto Adolfo Lutz.
A importância do Instituto Adolfo Lutz
O Instituto Adolfo Lutz é uma das mais importantes instituições de saúde pública do país. Com 134 anos de história, atua como laboratório central de saúde pública, referência técnica e científica em vigilância epidemiológica, sanitária, ambiental e laboratorial.
Sua atuação envolve centenas de tipos de exames, diagnóstico de doenças de alta relevância, investigação de surtos, controle de qualidade de água, alimentos e produtos de interesse sanitário, vigilância de vírus respiratórios, arboviroses, meningites, botulismo, tuberculose, microrganismos emergentes e outros agravos de importância nacional e internacional.
O IAL não é apenas um conjunto de prédios. É uma infraestrutura estratégica do Estado brasileiro.
Ali estão laboratórios especializados, equipamentos, protocolos validados, equipes altamente treinadas, coleções microbiológicas, biobancos, acervos históricos, séries epidemiológicas, conhecimento técnico acumulado e capacidade de resposta construída ao longo de mais de um século.
O hospital inteligente também é necessário
A construção de um hospital inteligente pode representar avanço importante para o SUS. A incorporação de tecnologias digitais, inteligência artificial, telemedicina, conectividade, integração de dados e novos modelos assistenciais pode ampliar a capacidade de atendimento, qualificar fluxos e fortalecer a rede pública.
O problema, portanto, não é a existência do hospital. O problema é qualquer possibilidade de que sua implantação ocorra mediante enfraquecimento de outra estrutura essencial da saúde pública.
Informações desencontradas e ausência de manifestação oficial
Causa preocupação a circulação de informações internas, ainda sem manifestação oficial clara do Governo do Estado de São Paulo, sobre a possibilidade de desmobilização, transferência ou demolição de estruturas do Instituto Adolfo Lutz para viabilizar a construção do hospital inteligente na região do chamado quadrilátero da saúde.
Até o momento, não há conhecimento público de um plano formal, transparente e tecnicamente detalhado que informe para onde o Instituto seria transferido, como seriam preservados seus laboratórios, como se garantiria a continuidade dos exames, como seriam protegidos seus acervos biológicos, como ocorreria a validação das novas estruturas e como seria evitada a interrupção de atividades críticas para a vigilância em saúde.
Hospital inteligente e IAL devem coexistir
Um sistema de saúde resiliente não escolhe entre assistência e vigilância. Ele fortalece as duas.
A construção de um hospital inteligente deve ocorrer em integração com as instituições já existentes, especialmente aquelas responsáveis por proteger a população antes que os agravos se transformem em internações, surtos ou emergências sanitárias.
Hospital e Instituto Adolfo Lutz devem coexistir, dialogar e se fortalecer mutuamente. O que não pode ocorrer é que a construção de uma nova promessa para a saúde pública resulte no desmonte de uma estrutura que há 134 anos protege silenciosamente a população.
Consequências de um eventual desmonte
A desorganização do Instituto Adolfo Lutz poderia gerar consequências graves para São Paulo e para o Brasil. Entre elas, destacam-se:
- atraso em diagnósticos de referência;
- enfraquecimento da vigilância epidemiológica;
- perda de capacidade de resposta a surtos;
- interrupção ou redução de análises sanitárias;
- risco à segurança de acervos microbiológicos e biobancos;
- perda de séries históricas de vigilância;
- descontinuidade de métodos laboratoriais validados;
- evasão ou fragmentação de equipes especializadas;
- comprometimento de funções que atendem redes estaduais e nacionais de saúde pública.
Parte dessa estrutura envolve laboratórios de contenção biológica, coleções microbiológicas, biobancos e materiais que exigem rigor extremo de biossegurança, rastreabilidade, transporte, armazenamento e continuidade operacional.
Linha do tempo resumida
O Instituto Adolfo Lutz consolida uma trajetória de atuação em saúde pública, vigilância laboratorial, pesquisa, diagnóstico de referência, controle sanitário e resposta a emergências.
O Governo Federal anuncia projeto de hospital inteligente público do SUS, em parceria com o Banco do BRICS, com proposta de inovação tecnológica, integração assistencial e modernização da saúde pública.
Passam a circular informações não oficialmente esclarecidas sobre possível uso de áreas ocupadas por estruturas do Instituto Adolfo Lutz, gerando preocupação entre trabalhadores, pesquisadores e setores ligados à vigilância em saúde.
Até o momento, não há conhecimento público de documento detalhado que apresente local definitivo, cronograma, transição laboratorial, validação de novas estruturas e garantias de continuidade dos serviços críticos do IAL.
Diante da relevância do Instituto, torna-se necessária manifestação formal das autoridades responsáveis, com apresentação de informações oficiais, técnicas, documentadas e acessíveis à população.
Perguntas públicas que precisam ser respondidas
Antes de qualquer intervenção física, transferência, desmobilização ou demolição envolvendo estruturas do Instituto Adolfo Lutz, é necessário que as autoridades responsáveis respondam publicamente:
- Existe decisão oficial sobre demolição, transferência ou desmobilização de prédios do Instituto Adolfo Lutz?
- Qual órgão tomou essa decisão e onde está publicado o documento correspondente?
- Qual é o local definitivo previsto para a realocação do Instituto ou de suas unidades afetadas?
- Esse local já possui infraestrutura laboratorial compatível com as funções atuais do IAL?
- Como serão mantidos os laboratórios de contenção biológica e os níveis de biossegurança necessários?
- Como será garantida a continuidade dos exames de referência e das atividades de vigilância?
- Como serão preservados os biobancos, coleções microbiológicas, cepas de referência e acervos históricos?
- Qual será o plano de transporte, rastreabilidade e segurança dos materiais biológicos?
- Haverá validação técnica independente das novas instalações antes de qualquer mudança?
- Os trabalhadores, pesquisadores e especialistas do IAL participaram efetivamente do planejamento?
- Há estudo de impacto sanitário, científico, logístico, ambiental e financeiro da eventual transferência?
- Quais atividades poderiam ser interrompidas ou reduzidas durante o processo?
- Que medidas serão adotadas para impedir perda de capacidade técnica, evasão de profissionais e descontinuidade científica?
- Por que não foram apresentadas alternativas locacionais que preservem integralmente o Instituto Adolfo Lutz?
- Qual é o compromisso formal do Governo do Estado de São Paulo com a preservação plena do IAL?
Solicitação às autoridades
Por isso, solicitamos transparência, responsabilidade técnica e diálogo público. É indispensável que o Governo do Estado de São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde, o Governo Federal, a Universidade de São Paulo, as comissões envolvidas e os responsáveis pelo projeto apresentem informações oficiais, documentadas e acessíveis sobre qualquer plano que envolva áreas, prédios, laboratórios, acervos, equipes ou atividades do Instituto Adolfo Lutz.
Antes de qualquer intervenção física, transferência ou demolição, é necessário garantir:
- continuidade integral dos serviços laboratoriais;
- preservação dos laboratórios especializados e de contenção biológica;
- proteção dos biobancos, coleções microbiológicas e acervos científicos;
- segurança no transporte e armazenamento de materiais biológicos;
- validação técnica de qualquer nova estrutura;
- participação dos trabalhadores e especialistas do IAL no planejamento;
- manifestação pública das autoridades responsáveis;
- garantia de que nenhuma função estratégica de vigilância em saúde será interrompida, reduzida ou fragmentada.
Conclusão
Construir o futuro do SUS exige tecnologia e hospitais modernos. Mas também exige respeito às instituições que protegem a população antes que a doença chegue ao leito hospitalar.
Preservar o Instituto Adolfo Lutz é preservar a capacidade de São Paulo e do Brasil de detectar, prevenir e responder a ameaças à saúde pública.
São Paulo e o Brasil precisam do hospital inteligente. São Paulo e o Brasil também precisam do Instituto Adolfo Lutz preservado, fortalecido e integrado às novas estratégias de saúde pública.